Esse é o tipo de texto que, quase sempre, envelhece mal.
No estilo de “a dinastia do Patriots acabou”, ou “Ben Simmons vai redefinir a posição de armador na NBA”, ou qualquer outra tese que fale do Neymar hipotético.
Mas eu não to nem aí, vou sustentar toda a minha tese com os dados que tenho agora. Essa é a beleza do esporte na perspectiva de um fã e aqui estamos nós, escrevendo sobre o que pode ser a era de ouro em Indiana.
Sim, Indiana.
O estado que sempre viveu mais de lembranças do que de conquistas recentes. O lugar onde o basquete é religião, o futebol americano é uma eterna esperança, e o resto… bem, o resto é silêncio.
Mas, curiosamente, o silêncio sumiu.
¡Vamos Hoosiers!
Os Hoosiers entraram na temporada como aquele time que a gente olhava com boa vontade. Mas agora, de repente, até os analistas já começam a levantar as sobrancelhas. O confronto contra Oregon neste fim de semana não é mais “sobre sobreviver”, é sobre provar que pertencem ao crème de la crème (ou seria lo mejor de lo mejor) do College Football.
A imprensa local, caracterizada por ser muito amendoinzeira e extremamente clubista, passou anos falando em reconstrução, mas agora começa a falar em respeito. E, pasmem, com razão. O mais curioso é que isso passa muito pelas mãos de Fernando Mendoza, o quarterback latino que vem mudando a cara do programa.

Fonte: Caleb Bowlin / Getty Images
Em um estado tradicionalmente conservador, onde o futebol universitário sempre teve sotaque do meio-oeste branco (falo isso sem desrespeito algum, eu até gosto muito do Midwest Emo), Mendoza virou o protagonista improvável: carismático, eficiente e, acima de tudo, respeitado. É o tipo de história que o esporte adora e que Indiana talvez precisasse.
Um cara com nome hispânico sendo ovacionado em um estádio em um dos centros mais republicanos da América é o tipo de imagem que diz mais sobre o presente do que qualquer ranking.
Indiana Jones and The Winning Season
Lá no centro da cidade de Indianapolis, Daniel Jones está jogando o melhor futebol de toda a sua carreira. Ganhou apelido novo, deixou de ser Dimes e virou o Indiana Jones.
Até agora o Indianapolis Colts perdeu apenas um jogo. Um jogo duro contra os Rams, mas que poderia muito bem ter vencido, não fosse as presepadas de Adonai Mitchell. O time lidera a AFC e muito passa pelo quarterback ex-Giants. Mas também precisamos ressaltar todo o equilíbrio desse time.
No ataque Jonathan Taylor é discutivelmente o jogador ofensivo da temporada até aqui, Tyler Warren tem pinta de calouro ofensivo do ano e a linha ofensiva do Colts voltou a ser boa.
A defesa do Colts é muito consistente, a secundária que sempre foi um problema está muito melhor depois de receber os reforços de Charvarius Ward e Cam Bynum. O segundo anista Laiatu Latu ainda não parece ser a resposta para um excelente pass rusher, mas já é o melhor que o time viu em um bom tempo.

Fonte: Pro Football Network
Por fim, até os special teams parecem editados em videogame. No jogo contra o Raiders teve bloqueio de punt e Spencer Schrader, o kicker que infelizmente se machucou no último jogo, até a semana 4 tinha mais pontos que o time inteiro do Texans. Não é clubismo, não é exagero. O Colts é realmente um bom time. E não é só no papel.
Enquanto isso, no basquete, a mulherada do Indiana Fever desafiou qualquer roteiro de tragédia. Foram tantas lesões que até fora de quadra teve gente machucada. A temporada parecia amaldiçoada desde cedo.
O basquete ferve em Indiana
A estrela Caitlin Clark passou boa parte do ano entrando e saindo do time, lidando com lesões musculares e uma contusão na virilha que a tirou até do All-Star Game. As armadoras Aari McDonald e Sydney Colson tiveram lesões que encerrariam a temporada delas no mesmo jogo!
Semanas depois a ala Sophie Cunningham, que estava numa temporada dos sonhos, sofreu uma lesão no joelho. Pra completar, Damiris Dantas sequer conseguiu atuar nos playoffs por causa de uma concussão.
Nem o entorno do time escapou. A assistente de desenvolvimento rompeu o tendão de Aquiles em 1º de setembro. No dia seguinte, uma funcionária do departamento de comunicação quebrou o cotovelo e o punho. E até a lendária artista Red Panda, durante o show do intervalo na final da Commissioner’s Cup entre Fever e Minnesota Lynx, caiu e fraturou o punho.

Fonte: Facebook do Indiana Fever
Sem explicação lógica, o time completamente remendado seguiu firme. Virou a série contra Atlanta e bateu de frente com o poderoso Las Vegas Aces. Levou a disputa até o Jogo 5 e, sem medo de parecer clubista, dá pra afirmar: ofereceu muito mais resistência ao Aces do que o próprio Phoenix Mercury vem oferecendo agora nas finais.
A temporada foi curta em vitórias, mas longa em mensagem: elas chegaram pra ficar.
E o Indiana Pacers? Bom, o Pacers lembrou o mundo que o basquete em Indiana ainda pulsa com força. A corrida até as Finais foi histórica, trágica no fim, sim, mas inesquecível. Um time jovem, técnico, com identidade. Do tipo que não precisa vencer pra provar que é bom. Do tipo que acende esperança. O futuro é promissor, mesmo que nessa temporada Tyrese Haliburton fique longe das quadras.
Era de ouro?
Não tem outros grandes times em Indiana. Mas, honestamente, nem precisa. Pela primeira vez em muito tempo, o esporte no estado parece em sintonia, o College, a NFL, a WNBA e a NBA, todos respirando o mesmo ar competitivo, o mesmo orgulho local.
E talvez por isso esse texto vá envelhecer mal. Porque a história não costuma ser gentil com momentos assim. Mas se o presente é o que temos, Indiana merece celebrá-lo.
E eu falo com propriedade, pois passei um tempo em Indianapolis e vi de perto essa energia. A cidade vibra. O esporte está no centro das conversas, nos bares, nos murais, nas ruas. Talvez o futuro seja cruel, mas o agora…
O agora é bonito demais pra ignorar e os fãs de Indiana merecem muito.