Com o tempo, a voz pesa mais que a chuteira

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Esses dias brinquei no meu Instagram que se o Felipe do futuro me dissesse que tudo aconteceria em 2025, eu duvidaria demais. E nesse ano, bem fora do padrão tradicional da minha vida, confesso que o viver na Ásia tem me trazido mais momentos de reflexão do que o normal! Não vou colocar a responsabilidade em toda sabedoria milenar desse continente, vou colocar em mim e no tempo que eu tenho me permitido refletir.

Enfim, esses dias vi alguns momentos de um podcast chamado “A Touch More”. Pra quem não conhece, já pesquisa aí e adiciona na sua lista. É da Sue Bird, incrível jogadora americana da WNBA e de sua noiva, Megan Rapinoe, outra incrível jogadora, só que de futebol mesmo. No meu modo de ver a vida, diria tranquilamente que a Rapinoe é muito maior que a Sue Bird, pois o fora das 4 linhas dela é algo impressionante!

Megan Rapinoe e Sue Bird em jogo do Seattle Storm
Fonte: Steph Chambers/Getty

Sue Bird, Caitlin Clark e o alcance da discussão

Dito isso, nos lances que eu vi o podcast (é um episódio antigo, mas o youtube trouxe pra mim), elas falavam sobre o racismo na WNBA e sobre Caitlin Clark. Óbvio que isso me chamou atenção, até pelo motivo de eu nunca ter visto esse tipo de fala quando o assunto é a liga feminina de basquete. Normalmente o assunto que entramos é só sobre os salários mais justos, dar mais atenção pra liga e tudo mais.

Em um momento do podcast a Sue diz que Caitlin Clark não trouxe o racismo para a liga, ela só está sendo usada como uma presa fácil, num jogo onde velhos preconceitos já estavam posicionados há muito tempo. O problema não é novo, o que é novo mesmo é o alcance da WNBA por conta da imagem de Caitlin Clark. Por si só a fala já é uma defesa pra Clark e eu na minha posição de torcedor do Indiana Fever deveria ficar contente.

Só que eu não fiquei nada confortável com essa defesa. O que eu sentia da fala da Bird, e que na minha cabecinha ainda era uma afronta a sua noiva que estava bem na sua frente, é que ela estava diretamente criticando um ambiente que fazia questão que os jogadores, ou qualquer pessoa que tenha um alcance grande de mídia, tivesse que se posicionar e entrar no centro de discussões sociais.

A armadora do Indiana Fever, Caitlin Clark e a ala do Connecticut, Sun DiJonai Carrington, se enfrentando no jogo 1 do primeiro round dos playoffs de 2024 da WNBA.
Fonte: Erica Denhoff/Cal Sport Media/AP

Shut up and dribble? Aqui não.

Ahhh não Sue, aqui não! Eu paro pra ouvir o seu podcast e você me solta isso? Sou do time que vai diretamente contra o tal do “shut up and dribble” que mandaram para o Lebron James em 2018. Meu time é o dos Mbappés que vão pra coletiva e falam da importância do povo francês votar de forma consciente! Eu sou do time dos jogadores da NBA trocando seus nomes em camisas por frases de incentivo ao voto.

Eu sou do time do Sacha Kljestan! Que pra quem não sabe, apareceu logo após um sonoro 4 a 0 do LA Galaxy e fez questão de falar que não ia abrir a boca pra falar do jogo. Na coletiva depois do jogo, Sacha usou o microfone para criticar a ausência de ação política depois de mais um tiroteio em solo americano, dessa vez durante o feriado de 4 de julho em Highland Park.

“Estou enjoado. Chega de ‘thoughts & prayers’. Precisamos de ação real.”

Ele poderia ter comemorado. Mas preferiu se posicionar. Eu sou muito desse time. Eu fiquei num misto de sensações com a fala da Sue, mas preferia seguir pelo podcast e refletir sobre o caso. Talvez seja a Ásia, ou talvez seja apenas a minha idade e as coisas que a gente começa a pensar quando vamos ficando mais velhos, ou talvez seja só eu ignorando meus princípios e passando pano para a Caitlin Clark.

Reflexões em voz baixa (ou nem tanto)

Será mesmo que precisamos colocar jogadores no centro de discussões sociais mesmo quando eles não estão prontos pra isso? Eu sei bem que ficar calado também é uma fala forte, você ver algo recriminável e escolher ficar na sua é uma posição clara. Mas será que é mesmo? Será que se manter calado quando você não entende ou não viveu alguma experiência não é melhor ainda? Quando o atleta deve falar? Quando ele pode se calar?

Puxei para um cenário brasileiro, completamente diferente de um cenário de esportes americanos. Talvez em nossa realidade o silêncio e o discurso dizem muito mais. Boa parte dos jogadores brasileiros que se destacam vieram de contextos de pobreza e exclusão. Cresceram sem nunca se sentir pertencentes a lugar algum. De repente, ganham muito dinheiro, cercam-se de empresários e influências políticas, quase sempre de direita, e repetem os discursos desse novo meio como forma de pertencer a ele.

Não é só sobre política, é sobre sobrevivência social. É sobre se adaptar ao ambiente que agora te aceita, mesmo que isso signifique adotar uma visão de mundo que ignora exatamente de onde você veio. E aí nasce mais um dilema: É culpa do jogador? Ou do sistema que o moldou assim?

Contradições, silêncios e a maturidade de aceitar o tempo do outro

Pode parecer contraditório o que vou dizer, mas é real. Eu ainda acredito que, se você tem alcance, se tem uma plataforma, você pode (e deveria) usá-la para fazer o bem. Mas também, nesses anos de aprendizado, já começo a entender que nem todo mundo quer, ou nem todo mundo consegue, ou ainda, nem todo mundo precisa. E tudo bem.

Crescer, como pessoa ou como sociedade, talvez seja justamente aprender a respeitar o tempo de quem ainda não encontrou a própria voz, ou que escolhe usá-la de outro jeito. A Clark ainda me decepciona? Fora de quadra sim, dentro de quadra ela é genial! Fora de quadra eu ainda prefiro a Megan Rapinoe.

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