Da farm system ao último jogo

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Tinha feito meu último jogo pelo Jacksonville Suns, então time da double-A dos Dodgers, na Flórida. Depois de idas e vindas no farm system, 2008 estava sendo um belo ano. Embora meu recorde de vitórias e derrotas mostrasse mais insucessos (2-3). Mas isso era mais “culpa” do ataque do time do que meu. O ERA de 1.91, nos 13 jogos que fiz mostravam que eu estava afiado.

Havia alguns rumores de que os Dodgers me chamariam para a MLB. Mas preferi me concentrar onde estava e deixar que as coisas acontecessem naturalmente. A temporada das Majors já estava chegando ao seu primeiro terço e, de fato, veio a convocação. Maio de 2008. Mais precisamente, o dia 25 de maio de 2008. Domingo à tarde. Dodgers Stadium. Último jogo de uma série de três contra o St. Louis Cardinals. Eles já tinham vencido os dois primeiros. Então, cabia a mim tentar evitar a varrida.

O começo na MLB

Meu primeiro número na MLB foi o #54. Mark Sweeney usava o #22, que ainda em 2008 seria meu. O #22 não será usado por mais ninguém nos Dodgers (não quero ser modesto). Mas, voltemos ao meu primeiro jogo! Foram boas seis entradas. Somente duas corridas merecidas, em 102 arremessos. Sim, eu estava nervoso! Mas depois de eliminar Skip Schumaker, meu primeiro strikeout na MLB, senti mais confiança. Senti que era um major leaguer.

Foto de 2008, Clayton Kershaw (esquerda) e James McDonald (direita), dois grandes nomes da farm system do Dodgers naquele ano.
Fonte: Bob Self / The Florida Times-Union

Aquela temporada terminou na disputa da NLCS, contra os Phillies. Perdemos a série por 4-1 e eu fiz somente um jogo, vindo do bullpen. No geral, a temporada foi boa. Terminei com um 5-5, ERA de 4.26 e a certeza de que, dali em diante, meu lugar era a Major League Baseball. É estranho repassar a carreira. Lembrar do início imaginando o fim.

Início do fim no baseball

São 18 temporadas. De 2009 até aqui, o baseball foi generoso comigo. Aliás, o baseball sempre foi generoso comigo! Prêmios individuais, títulos… duas World Series (por que não pensar em mais uma? Estamos vivos em 2025!). Tantos incríveis companheiros de time. AJ, Russell, Barnesy, Will… meus catchers. Andre e Matt, grandes caras do começo de tudo! Mookie, Freddie, Shohei, Miggy, Kiké e Teo, os enormes de agora!

Mais de 3.000 strikeouts depois, preciso admitir que o tempo pesa, o braço está cansado, sinto dores (nas costas vocês já sabem o quanto). As pernas e os pés doem. O pescoço dói! Mas não quero falar de dor hoje! Estou aqui para falar do meu último jogo de temporada regular em casa. Um clássico contra San Francisco! O Dodger Stadium estava lotado. Minha família presente! Ela sempre esteve! Obrigado!

Não sabia o que seria. Embora tivesse me preparado da mesma maneira que faço para todas as partidas, naquela noite tudo seria diferente! Sabia! Emoções, sons, memórias, arremessos, sinais! Nada foi como antes!

Clayton Kershaw no momento que se torna o 20º pitcher na história da MLB a alcançar 3.000 strikeouts na carreira.
Fonte: The Associated Press

Post scriptum

Cedi um home run no primeiro duelo da partida. Definitivamente, eu não estava afiado! Os arremessos não saíam bem! Alguns walks (4) e strikeouts (6), duas corridas cedidas, poucas entradas arremessadas (4.1). Deixei o jogo com placar adverso: 1-2. Pelo menos, terminei com um belo strikeout em cima do Devers!

Clayton Kershaw sentado no campo do Dodger Stadium com seu filho, Charlie, antes do jogo contra o San Francisco Giants.
Fonte: Gina Ferazzi / Los Angeles Times

Quando fiz meu último arremesso e vi o Dave subindo as escadas do dugout, revivi muitos momentos e aceitei que muitos não experimentaria mais. Os aplausos me emocionaram. Respirei fundo diversas vezes! Aquela emoção não sentiria mais! Era a última! E seria para sempre!

Shohei e Mookie fizeram o serviço para que eu não ficasse com a derrota. Vencemos o jogo: 6-3! Ainda tenho trabalho ao fazer! Acredito que tenha algumas entradas para fechar minha história. Quero todas as partidas da pós-temporada! Quero todas até o último jogo da World Series. E será o jogo do título!

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