Escrevo isso logo após o Jogo 6 das Finais da NBA de 2025, daqui da manhã de Singapura, madrugada no Brasil. Completamente atrapalhado, atordoado. Meio quebrado, confesso. Mas melhor que ontem, quando estava meio quieto, meio perdido. Lógico, minha namorada, a Gabi, percebeu e logo disse “você tá estranho”. Do auge do meu auto-conhecimento eu dizia que estava tudo bem, mas claramente não estava mesmo. Introspectivo, triste, dentro de sofrimento que só quem é maluco por esporte entende.
E eu sempre fui esse maluco por esporte. Quem me viu no Canindé quando era adolescente já sabia: tem alguma coisa descompensada dentro desse moleque. O tempo só piorou? Talvez não, eu acho que aprimorou. Mas por qual motivo teria aprimorado? Pelo simples fato de torcer pra time gringo!
Imagina só, no país do futebol você assistir ligas americanas e se apaixonar por elas a milhares de milhas de distância! Parece coisa de doido. Mas é mais do que isso. É construir um elo com uma cultura inteira, com uma cidade que eu só pisei uma única vez, com vozes de comentaristas e narradores que eu escuto como se fossem de infância. É chorar por derrotas que não são minhas, comemorar como se o troféu tivesse meu nome gravado.
Hoosier
O Felipe torcedor do Indiana Pacers talvez seja meu lado mais bonito. Mais puro. Resiliente como o time. Pé no chão, sim. Não por escolha, mas por costume. A gente se acostumou a perder. A ver tudo dar errado. A ver os outros brilharem. E ainda assim, continuar amando.
Ganhar três títulos na ABA e depois entrar numa NBA dividida entre Lakers e Celtics é pedir pra ser coadjuvante. Viver na época do Jordan é castigo. Sobreviver a Shaq e Kobe, outro. E quando tudo parece caminhar… Malice at the Palace. Aí vem Lebron. E lesões. Aí vem estrela pedindo troca em praça pública. Aí vem a reconstrução da reconstrução da reconstrução.
Mas sabe o que mais vem?
Esse time de 2025.

Fonte: Grace Hollars/IndyStar
Talvez o melhor Indiana Pacers da história. E mesmo assim, desacreditado. Underdog em todos os jogos. O jogadores chamaram Tyrese Haliburton de overrated. Disseram que a gente não tinha estrela. Que era frágil na defesa. Que não dava pra confiar. Que o OKC era mais pronto, mais vistoso, mais favorito. E talvez seja mesmo.
Eu mesmo estive nesse buraco aí. Na entrevista que dei para a NBA Brasil lá de dentro da NBA House, e disse que não dava. Que a chance era mínima. Que o jogo deles era uma versão melhor do nosso, tudo que a gente faz bem, eles fazem um pouquinho melhor. Mas olha só. Jogo 7.
E se dessa vez der certo?
24 anos depois da nossa última final. Depois de um começo de 10 vitórias e 15 derrotas, aqui estamos, há uma vitória de um possível primeiro título da história da franquia. Esse time me ensinou de novo a amar o basquete. Um basquete sem fórmulas. Sem panelas. Sem super trios.
Um ataque que parece caótico, mas é poesia em movimento. Que se mexe sem a bola. Que confia. Que entrega. Que desafia a lógica da NBA moderna, essa que acha que tudo se resolve numa bola de três. Esse time voltou a dar alegria para o estado de Indiana, me fez voltar a ser criança e me sentir parte dele. Me fez sentir Hoosier.
Oklahoma também joga bonito, é verdade. Mesmo com as faltas que inventam pro MVP da temporada, Shai Gilgeous-Alexander (sem clubismo, mas com um pouquinho, sim). Mas é aquilo que sempre falo, ninguém nunca entenderá o que é torcer para o Pacers sem pelo menos um dia aparecer lá por Indianapolis no, agora, Gainbridge Fieldhouse. Então desse lado aqui, as coisas podem ser melhores.
E se dessa vez der certo? Essa é a pergunta que fica martelando na minha cabeça. Tudo pode acontecer naquele jogo que, como diz Bill Russell, tem as melhores palavras do esporte, jogo 7. E sabe de uma coisa? Eu não tô pronto pra perder. E também não tô pronto pra ganhar. Mas tô aqui. De coração inteiro. Porque não tem lugar mais bonito pra se estar do que ao lado de um time que nunca desistiu de ser grande. E que joga o jogo do jeito que ele foi feito pra ser jogado.
Que vença o melhor.
E que o melhor, por favor, seja o Indiana Pacers.